Estamos nos últimos dias de visitação de “Telúricos”, exposição em cartaz na Galeria Nara Roesler, com curadoria de Ana Carolina Ralston. A mostra reúne dezesseis artistas e apresenta um conjunto expressivo de trabalhos — muitos deles inéditos — que investigam a potência simbólica e material da terra. Entre os participantes estão nomes de projeção internacional, como Richard Long, pioneiro da Land Art, além de Not Vital e Isaac Julien.
A exposição também reúne artistas fundamentais do circuito brasileiro, como Brígida Baltar (1959–2022) e Amelia Toledo (1926–2017), ao lado de uma nova geração que vem ganhando destaque em eventos como a Bienal das Amazôniase a Bienal do Mercosul.
Em “Telúricos”, o elemento terra atravessa as obras em múltiplas camadas — ora como matéria, ora como metáfora ou memória — e se manifesta em diferentes linguagens, como pintura, desenho, escultura, fotografia e videoinstalação. Segundo a curadora, a proposta da mostra é ampliar a experiência sensorial do público, ativando percepções que vão além do olhar: entre as obras expostas estão esculturas olfativas e sonoras que convidam o visitante a experimentar a terra também por meio do cheiro e da escuta.
Participam da exposição, além dos nomes já citados, os artistas Alessandro Fracta, amorí, Ana Sant’Anna, C. L. Salvaro, Denise Alves-Rodrigues, Felipe Góes, Felippe Moraes, Flávia Ventura, Karola Braga, Kuenan Mayu e Lia Chaia.
Na Philos, temos a honra de publicar o texto curatorial de Ana Carolina Ralston sobre a exposição “Telúricos”:
“A imaginação telúrica cava sempre em profundidade;
ela não se contenta em superfícies, precisa descer, pesar, resistir.”
—Gaston Bachelard, A Terra e os Devaneios da Vontade
Não há devaneio que envolva a terra sem a experiência do corpo que empurra, cava, abre fendas, molda. A matéria terrestre não é um simples suporte, mas um agente de vontade, um núcleo de energia ativa que convoca metamorfoses e insurgências; uma força subterrânea que não é apenas cenário, mas protagonista, como defende o filósofo contemporâneo Bruno Latour. Assim, a Terra não é pano de fundo, mas ator político que intervém, reage e transforma nossos modos de habitar. O pensamento de Latour permite observarmos a potência telúrica não somente como estética, mas como uma força que reorganiza pactos, territórios e sensibilidades. É sobre essa fresta que se abre e que modifica nosso modo de entender o mundo que se trata a exposição coletiva “Telúricos”, atualmente em cartaz na Galeria Nara Roesler de São Paulo.
A mostra reúne 16 artistas, de distintos gêneros e suportes que, em comum, buscam repensar a política a partir do chão que pisamos, que nos sustenta e, ao mesmo tempo, expande e limita nossas possibilidades de existência. Ao deslocar o debate do abstrato para o territorial, percebemos que toda a prática — científica, artística ou social — implica uma tomada de posição. Nesse sentido, a Terra não é uma ideia global, mas um conjunto de superfícies instáveis, falhas geológicas, zonas de fricção entre humanos e não humanos. Aproximar-se desse pensamento por meio de produções artísticas atuais é operar como dispositivo de atenção ao solo, à matéria e às condições de habitabilidade do mundo. A força telúrica manifesta-se não apenas como espetáculo, mas como pressão contínua, densidade histórica e material que atravessa corpos e culturas. Trata-se de um exercício de responsabilidade estética e política, capaz de reconfigurar nossa relação com o planeta e de imaginar formas de coexistência com aquilo que nos sustenta.
Encarar a complexidade e instabilidade terrena é também entender sua desterritorialização — um movimento que desfaz formas antigas e inaugura paisagens inéditas. Coloca-se, assim, o território como reflexão, e suas crateras como lugar de inversão térmica do mundo. Cada obra presente neste espaço pode ser lida como um documento dessa negociação com o planeta: registros de fricções, tensões, alianças, advertências. Em um momento histórico que vivemos, a arte assume o papel ampliado, onde o chão que pisamos também vota, protesta e fala.
O tempo geológico insiste em mover-se no presente. Aproximar-se dessa política terrestre é também tratar de suas válvulas de escape. O vulcão torna-se, assim, uma figura extrema de pertencimento e conflito: um lugar onde não há neutralidade possível, apenas negociações constantes entre vida, risco e renovação. São órgãos pulsantes, zonas onde a terra abre passagem ao seu interior e expõe sua memória. Locais de criação e destruição simultâneas, onde o que parece estável se torna fluxo. A lava é um pensamento que Bachelard chama de “vontade de estar puro”. Uma matéria que decide mover-se, romper e transformar. Não é apenas um fenômeno natural, mas uma metáfora daquilo que emerge quando a superfície cultural se fenda – quando as forças minerais e sociais irrompem para reorganizar o visível.
A erupção vulcânica, nesse sentido, é a expressão radical da capacidade do planeta de alterar-se, de reinventar sua forma e de impor ritmos imprevistos à vida. Dessa forma, cada artista promove uma gramática própria de contato com o subterrâneo. As produções reunidas na exposição evidenciam essa coabitação profunda: pigmentos extraídos do solo, minerais e resinas reativadas pelo fogo. Em cada gesto artístico, há a consciência de que criar é participar dessa grande respiração metamórfica que funda o planeta. É importante lembrar que tudo — minerais, plantas, humanos — participa de um mesmo processo respiratório, um único corpo planetário em constante transformação.
Ao introduzir o conceito de carne do mundo, Merleau-Ponty oferece uma chave sensorial para perceber a Terra não como objeto, mas como presença que vibra conosco. Assim, a matéria é sempre uma dobra sensível, algo que responde, que reverbera, que nos constitui tanto quanto a tocamos. No contexto desta exposição, a força telúrica aparece como essa pulsação compartilhada: o calor subterrâneo que, mesmo invisível, repercute em nossos corpos. Os artistas tornam-se escutadores dessa carne profunda — como se cada obra fosse uma tentativa de registrar a respiração lenta e inaudível do planeta.
SOBRE A MOSTRA
“Telúricos”, reúne mais de 40 trabalhos — muitos deles inéditos — que, em diferentes suportes, buscam repensar a política a partir do chão em que pisamos, aquele que nos sustenta e, ao mesmo tempo, expande e limita nossas possibilidades de existência.
A exposição investiga a força profunda da matéria terrestre e as relações viscerais entre o corpo humano e o corpo da Terra. As obras presentes abordam esses vínculos de maneiras distintas, acionando dimensões geológicas, espirituais e políticas da paisagem. “Telúricos” integra a pesquisa de Ralston sobre natureza e tecnologia e dialoga com o pensamento do filósofo Bruno Latour (1947–2022), para quem a matéria terrestre não é um simples suporte, mas um agente de vontade: um núcleo de energia ativa que convoca metamorfoses e insurgências, uma força subterrânea que deixa de ser apenas cenário para se afirmar como protagonista.
Logo na primeira sala, destaca-se a escultura “Moon” (2017), em mármore branco, do artista suíço Not Vital, apresentada próxima a três obras de Richard Long — seu amigo e um dos pioneiros da land art — criadas em 2024 a partir de pedaços de madeira recolhidos pelo artista e transformados com tinta acrílica e argila.
Nas paredes, aparecem duas pinturas inéditas de Ana Sant’anna — O instante que paira e Nut (2025), ambas em óleo sobre tela — descritas pela curadora como “paisagens que misturam nosso imaginário e espaços telúricos”. A videoinstalação “Enterrar é plantar” (1994), de Brígida Baltar, composta por quatro telas, registra a ação da artista de “enterrar suas memórias” e é apresentada ao lado de dois desenhos Sem título (2000 e 2002).
Também integra o percurso a instalação “Canto das ametistas” (2001), de Amelia Toledo, na qual blocos de ametista dispostos no chão são refletidos e amplificados por dois painéis de aço inox apoiados na parede em ângulo de 90 graus — obra escolhida por sua ressonância mineral e espiritual, característica da pesquisa da artista.
Na parede frontal do grande espaço de pé-direito duplo, encontra-se a fotografia “Under Opaline Blue (Stones Against Diamonds)” (2015), de Isaac Julien, ampliando a dimensão poética e política da relação entre paisagem, memória e território.

OUTROS SENTIDOS, ALÉM DO OLHAR
A artista Karola Braga (1988, São Caetano do Sul, São Paulo; vive na capital) tem seu trabalho baseado na pesquisa do olfato. Sua escultura “Perfumare” (2025) em metal com difusão contínua de névoa, estará na vitrine da galeria Nara Roesler. Duas outras esculturas, inéditas, dispostas na parede, são em cera de abelha aromática: “Mirra: Passagem” e “Olíbano: Ascensão”, ambas de 2025.
Próximo a este núcleo ficará a escultura sonora de Denise Alves-Rodrigues (1981, Itaporã, Mato Grosso do Sul;vive e trabalha em Brasília) – “O método do cristal”(2020), com um prato de metal, usado por bateristas, cristal de quartzo, circuito eletrônico, madeira e som.
A artista amorí (1995, zona da mata do sul de Pernambuco; vive e trabalha em Recife) está na exposição com dois trabalhos inéditos: a grande escultura “As duas” (2025), com três metros de comprimento, em ferro, látex, estopa de algodão e couro, e a pintura “O cio da terra” (2024), em tinta óleo sobre painel. “Enfermeira, o trabalho de amorí fala muito sobre o humano, os curativos atados com gazes e látex, e também sobre a transformação do próprio corpo”, comenta Ana Carolina Ralston.
Kuenan Mayu (2003, Manaus) é uma jovem “artivista” indígena trans, pertencente às etnias Tikuna e Tariana, a que está profundamente conectada. Suas três obras inéditas, da série “Eware” (2025), foram criadas com pigmentos naturais – açafrão-da-terra, argila branca, cumate, crajirú, jenipapo, pacová e pau-brasil – sobre fibra da entrecasca de árvore da Amazônia.Algumas palavras do idioma Tikuna não têm tradução para o português, mas a artista faz aproximações para os títulos das obras expostas: “Ãun`ãtchi” – o encantamento do corpo físico e espiritual ou quando nós fundimos com a natureza, no qual o ser se transforma em um espírito imortal em Eware, o sagrado Magü’ta; “Cu’natchana’ã arü” – o ato da transmutação de uma matéria encantada, em que a matéria deixa de ser apenas física e passa a veículo de força espiritual e cura; e “Guu’ma y naanegü” – significa “Toda Terra”, conceito baseado na cosmovisão do povo Magü’ta de coexistência entre todos os seres, conectados por forças e espíritos das águas, da terra e do céu, onde a natureza é o todo sagrado.
Dois artistas mostrarão trabalhos inéditos feitos sobre juta. Flávia Ventura (1991, Belo Horizonte), com a pintura em grande formato “Noite” (2025), da série “Paisagens internas”, em tinta óleo sobre juta, com 2,5 metros de altura por 2 metros de largura. 0 x 200 cm. “Sua pintura traz bastante materialidade, com uma relação forte com o ambiente natural. O ser biomórfica no centro parece enraizando, que nos faz lembrar que fazemos parte da natureza”, diz a curadora.

Alessandro Fracta (1997, Manaus; vive e trabalha entre Manaus e Rio de Janeiro) traz dois trabalhos, um tríptico e outro em grande formato, todos em fibra de juta bordada sobre tela de juta,de 2025, da “Série Amuletos de um tempo sinuoso”. “Alessandro Fracta é um artista nortista e ribeirinho, que pensa sua identidade a partir do território”. “Ele vem trabalhando a fibra de juta e bordado”, informa Ana Carolina Ralston.
Um conjunto com três obras vermelhas de Lia Chaia (1978, São Paulo), da série “Organóide” (2024), em base acrílica e tinta esmalte acetinada, suspensas do teto por linhas de aço, representam “as entranhas do corpo humano, a força interior do corpo da mulher”, aponta a curadora.
INSTALAÇÃO SUSPENSA
Na passagem entre as salas, atravessando o percurso do público, estará a instalação “Antes de afundar, flutua” (2026), feita por C. L. Salvaro (1980, Curitiba) especialmente para o espaço da exposição, com planta, terra, entulho e tela de arame. Uma parte da obra ficará próxima ao chão, e outra suspensa, de modo a permitir a passagem dos visitantes por baixo dela. “A obra interfere arquitetonicamente no ambiente,como se estivéssemos passando por baixo da terra, e provoca uma reflexão sobre nossa rota, nossos caminhos, também subterrâneos na vida”, afirma a curadora. Do artista estarão ainda duas obras na parede: “PP” (2022), em resina, fibra de vidro e terra, e “Deposições” (2021), formada por quatro esculturas em resina, resíduos, madeira policromada, parafina e metal, com 22 cm de altura, e largura total de 55 centímetros. Ana Carolina Ralston ressalta que Salvaro “é um artista experimental que trabalha com aideia de arqueologia, como se fosse escavando e tirando essas memórias que habitam esse lugar do interior da terra”.
VULCÕES E CONSTELAÇÕES
Vulcões, em cores vibrantes, estão em “Pintura 332” (2018), e “Pintura 458” (2025), ambas em tinta acrílica sobre tela e inéditas, de Felipe Góes (1983, São Paulo). “Felipe trabalha bem em grandes e pequenos formatos, tratando a paisagem com delicadeza e as questões cromáticas de forma interessante e profunda”, conta a curadora. Na exposição, o trabalho do artista ocupa esta manifestação da Terra, “com esta força interna imensa que funciona como uma válvula de escape”, observa Ana Carolina Ralston.
Felippe Moraes (1988, Rio de Janeiro) entra em “Telúricos” com três obras em neon, que representam as constelações dos três signos de elemento terra na astrologia: “Taurus”, “Virgo” e “Capricornius”, todas de 2023, da série “Solaris Discotecum”. Dele estarão ainda duas pinturas em tinta acrílica, de 2025, inéditas, da série “Evento Celestial”: “Aganjú”, “Sirius A & B” e “Tempestade Solar”.
Ana Carolina Ralston assinala que a exposição se fundamenta em um conceito do filósofo Gaston Bachelard (1884-1962), em seu livro “A Terra e os Devaneios da Vontade” (1948): “A imaginação telúrica cava sempre em profundidade; ela não se contenta em superfícies, precisa descer, pesar, resistir”.
“No contexto desta exposição, a força telúrica aparece como essa pulsação compartilhada: o calor subterrâneo que, mesmo invisível, repercute em nossos corpos. Os artistas tornam-se escutadores dessa carne profunda — como se cada obra fosse uma tentativa de registrar a respiração lenta e inaudível do planeta.” —ANA CAROLINA RALSTON
Ana Carolina Ralston é mestra pela Columbia New York University/Universidade de Barcelona em jornalismo cultural, e pós-graduada em arte, crítica e curadoria pela PUC de São Paulo. Pesquisadora e curadora de artes visuais, organiza e faz textos e projetos para instituições, entre elas Pavilhão da Bienal, MIS-SP, Museu de Belas Artes de São Paulo (MuBA), Centro Cultural Correios – em São Paulo e no Rio de Janeiro –, Praça das Artes e Biblioteca Mário de Andrade, e galerias, como Nara Roesler, Raquel Arnaud, A Gentil Carioca, Marilia Razuk e Leme. Foi curadora adjunta do museu FAMA, em Itu/SP,entre 2018 e 2020, onde assinou exposições de Louise Bourgeois,Tracey Emin, Arthur Bispo do Rosário entre outras; e diretora artística da galeria Kogan Amaro, com unidades em São Paulo e Zurique, durante o mesmo período. Como jornalista, foi redatora-chefe da revista mensal do jornal “O Estado de S. Paulo”, sobre moda e cultura, entre 2020 e 2023. Também foi editora sênior de cultura e lifestyle da “Vogue Brasil”, entre 2013 e 2018, e diretora da“Harper’s Bazaar Art”, em 2019. Sua pesquisa trata sobre o universo ambiental e a tecnologia.
SOBRE NARA ROESLER
Nara Roesler é uma das principais galerias de arte contemporânea do Brasil, representa artistas brasileiros e latino-americanos influentes da década de 1950, além de importantes artistas estabelecidos e em início de carreira que dialogam com as tendências inauguradas por essas figuras históricas. Fundada em 1989 por Nara Roesler, a galeria fomenta a inovação curatorial consistentemente, sempre mantendo os mais altos padrões de qualidade em suas produções artísticas. Para tanto, desenvolveu um programa de exposições seleto e rigoroso, em estreita colaboração com seus artistas; implantou e manteve o programa Roesler Hotel, uma plataforma de projetos curatoriais; e apoiou seus artistas continuamente, para além do espaço da galeria, trabalhando em parceria com instituições e curadores em exposições externas. A galeria duplicou seu espaço expositivo em São Paulo em 2012 e inaugurou novos espaços no Rio de Janeiro, em 2014, e em Nova York, em 2015, dando continuidade à sua missão de proporcionar a melhor plataforma possível para que seus artistas possam expor seus trabalhos.
Serviço: Exposição “Telúricos” na Nara Roesler São Paulo, em cartaz até 12 de março. Endereço: Avenida Europa, 655, São Paulo, SP.
Gaston Bachelard (Bar-sur-Aube, 27 de junho de 1884 – Paris, 16 de outubro de 1962) foi um filósofo, químico e poeta francês. Seu pensamento está focado principalmente em questões referentes à filosofia da ciência.Gaston Bachelard (“A Terra e os Devaneios da Vontade”, 1948).
Bruno Latour (Beaune, 22 de junho de 1947 – Paris, 9 de outubro de 2022) foi um antropólogo, sociólogo e filósofo da ciência francês.Um dos fundadores dos chamados Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia (ESCT), sua principal contribuição teórica – ao lado de outros autores como Michel Callon e John Law – foi o desenvolvimento da teoria ator-rede que, ao analisar a atividade científica, considera tanto os atores humanos como os não humanos, estes últimos devido à sua vinculação ao princípio de simetria generalizada.
Maurice Merleau-Ponty (Rochefort-sur-Mer, 14 de março de 1908 — Paris, 3 de maio de 1961) foi um filósofo fenomenólogo francês, fortemente influenciado por Edmund Husserl e Martin Heidegger.